Para que serve um Banco Central sem taxa de juros?
Para quase nada. O problema (seríssimo) com que o Federal Reserve (Fed), banco central do planeta, se defronta neste momento, é justamente lidar com essa perigosa armadilha de se manter por muito mais tempo a sua taxa básica de juros no perigoso território das taxas superzero.
Se depender da discussão entre os economistas mais populares da cena mundial será difícil entender as causas (e menos ainda a solução) do elevado desemprego que assombra as economias dominantes. Começando pela maior economia do planeta. O nível da discussão caiu um pouco mais, na semana passada, quando o popular prêmio Nobel de economia Paul Krugman disse em artigo no jornal New York Times que o a rígida política monetária executada pelo Fed, banco central dos EUA, é a causa do elevado desemprego dos trabalhadores no país.
E provoca seu antigo chefe, que o contratou (inadvertidamente, podemos acrescentar) para dar aulas no departamento de Economia na Universidade de Princeton, em 2000. Diz ele que Ben Bernanke, atualmente presidente do Fed, teria mudado sua própria opinião do final dos anos 1990 – quando recomendava aos japoneses em ensaios acadêmicos que expandissem a inflação como remédio contra a grande recessão e deflação dos anos 1990 – não a aplicando na política praticada pelo Fed hoje.
PROPOSTA OBSCENA
Para o eclético economista, o Fed deve executar o que Bernanke preconizara para os japoneses: um fulminante aumento dos preços ao consumidor, quer dizer, “criar uma inflação de pelo menos 4 por cento” para reanimar a economia e “colocar os americanos de volta ao trabalho”. Como ele justifica sua tão sofisticada proposta? Muito simples: “A expectativa de uma elevada inflação ajudaria a economia, pois convenceria investidores e homens de negócio que ficar sentado em cima do dinheiro é uma péssima ideia”.1
Esse tipo de contorção mental, típica da pior vertente da economia vulgar (neoclássica ou keynesiana) tem pelo menos dois defeitos. O primeiro é genético: nosso voluntarioso Nobel de Economia, que não sabe qual a diferença de valor de troca e valor, como toda economia vulgar; consequentemente não sabe o que é moeda, que nada mais é do que uma forma do valor. Por essa má formação genética, ele acredita piamente que a moeda nasce no Banco Central e Bernanke tem toda autonomia do mundo para manobrar a seu bel prazer os preços reais da economia.
Que maravilha se essa elucubração fosse verdade. As crises econômicas já teriam sido abolidas há muito tempo. Aliás, nunca teriam existido. Nem o capital. Ao invés de uma contraditória lei geral da acumulação de capital comandando a dinâmica da economia, no ilusório mundo da economia vulgar existiriam apenas desequilíbrios ou falhas facilmente corrigíveis do virtuosíssimo mercado de oferta e demanda de moedas, de utilidades, de fatores de produção e de prêmios Nobel de economia.
Exagero? Pois é assim que a idiotia econômica imagina a vida econômica real. Depois que eles apagaram dos livros-texto e dos cursos de Economia a lei do valor-trabalho dos grandes economistas – Petty, Sismondi, Smith, Ricardo, Marx, etc., por simples instinto de sobrevivência dos capitalistas, proprietários fundiários e outras classes improdutivas – esses falsários foram condenados a vagar pelo mundo como laureados zumbis acadêmicos a repetir asneiras sobre a
moeda e outras categorias da verdadeira Economia Política.
HELICÓPTEROS ENFERRUJADOS
O segundo e mais grave defeito da proposta da nossa laureada musa da superficialidade econômica é de ordem prática. Ou, melhor dizendo, de irresponsabilidade. O próprio Bernanke, que, independentemente de sua filiação teórica, é um economista inteligente, e é isso que interessa, explica ele mesmo:
“Existe essa visão circulando de que as opiniões que exprimi a 15 anos atrás sobre o Banco do Japão são contrárias a nossas políticas atuais. Isso é absolutamente incorreto. Minha opinião e nossa política atual são completamente consistentes com as opiniões que eu sustentava naquela época. A questão é se faz algum sentido incentivar uma elevada taxa inflacionária para conseguir uma levíssima queda da taxa de desemprego. O ponto de vista do comitê do Fed é que isso seria muito irresponsável”.2
Na atual quadratura do ciclo, a proposta irresponsável de Krugman, mais que indecente, equivaleria a retirar os helicópteros de Bernanke da garagem e retomar intermináveis e insanos voos rasantes sobre Wall Street lançando mais e mais QEs, os Quantitative Easing [relaxamento quantitativo], com os quais o Fed lançou os mais de três trilhões de dólares no mercado no auge da crise. De vez em quando, ainda se ouve vozes isoladas especulando sobre a possibilidade de um QE3. Mas essas vozes são cada vez mais raras. Tendem a silenciar por completo.
A irresponsabilidade de Krugman a que se refere Bernanke decorre do fato que devido àquela má formação genética que nos referimos acima, ele é incapaz também de acompanhar as mudanças da dinâmica econômica no decorrer do ciclo de negócios. Mas para quem entende um pouco de deflação e inflação, como o próprio Bernanke, Greenspan, Summers, Roach, etc., não é preciso muito esforço para entender que relançar os QEs agora seria uma idiotice completa.
Os helicópteros de Bernanke já estão enferrujados. É coisa do passado, do período 2008-2010. Agora, mesmo com uma recauchutagem dos velhos aparelhos, injetar mais moeda no mercado não faria nenhum efeito sobre o crescimento econômico – apenas aumentaria a conta que será cobrada (com juros e correção monetária, já que estamos a falar de mercado monetário) no final do atual período de expansão. O mesmo vale para mais gastos do governo que aumentassem doravante a também exaurida dívida pública.
O VERDADEIRO PROBLEMA
O Fed ainda dispõe de instrumentos para regular energicamente o mercado? Como o fez em todo o período pós-guerra? Ou já atingiu a exaustão? Bernanke repete sem parar aos homens do mercado que a deflação foi vencida e que o Fed, mesmo com a inutilidade da sua taxa zero de juros, típica de uma moeda refém de uma armadilha de liquidez, deflacionária, dispõe de outras ferramentas para operar a sua política monetária. Quais são essas ferramentas? Isso é um grande mistério.
É claro que as raposas do mercado desconfiam dessas afirmações. Com dinheiro em jogo dissimulação não pega. As expectativas criadas pelas autoridades monetárias são cada vez menos racionais. Mas enquanto a indústria reguladora do preço de produção do mercado mundial continuar seu atual período de expansão e acumulação cíclica a aumentar a produtividade do trabalho e a inundar de mais-valia os cofres dos capitalistas e demais classes proprietárias em todo o mundo, todos fazem de conta que o Fed ainda tem muitas e eficientíssimas ferramentas para agir.
Para que serve um Banco Central sem taxa de juros? Para quase nada. O problema (seríssimo) com que o Fed se defronta neste momento é justamente lidar com essa perigosa armadilha de se manter por muito mais tempo a taxa básica de juros do banco central do planeta próximo de zero.
É importante salientar que é devido a condições muito particulares do atual período de expansão que o Fed é obrigado a fazer o que se chama no mercado de forward guidance (“indicação de tempo” tradução livre): prefixar que até meados de 2014 a taxa básica de juros da maior economia do planeta é imexível, quer dizer, permanecerá no fatídico território das taxas superzero.
No mesmo território, aliás, que permanece até hoje a taxa básica do Banco do Japão. Pelo que nos lembramos, essa é a primeira vez que o Fed se utiliza de um forward guidance de tão longa duração. Não é a melhor confissão de que o Fed está exaurido?
Se, no final dos anos 1990, as recomendações do professor doutor Ben Bernanke não ajudou aos japoneses a extirpar de vez o tumor que ainda se aloja na terceira grande economia dominante mundial (a segunda é a Alemanha do capenga euro), elas funcionarão agora em sua própria casa? Talvez.
De todo modo, o atual período de expansão tem prazo curto de validade. Não mais que dois a três anos, se tanto. Aí poderemos esclarecer essas dúvidas da maneira mais prática possível. Vale a pena esperar, pois o espetáculo será grandioso.
1 Bloomberg News – “Krugman Says Fed ‘Reckless’ to Allow High Jobless Rate” [Krugman Declara que Fed é ‘Irresponsável ’ ao Permitir Alta Taxa de Desemprego] – http://www.bloomberg.com/news/2012-04-30/krugman-says-fed-should-allow-inflation-to-rise-above-2-goal.html
2 Bloomberg News – Bernanke Takes On Krugman’s Criticism Ignoring Own Advice – [Bernanke rebate crítica de Krugman de que ele ignora sua própria recomendação] http://www.bloomberg.com/news/2012-04-25/bernanke-rejects-criticism-he-ignores-his-own-policy-advice.html