A Viena Vermelha

Houve um tempo em que bairro social era sinónimo de comunidade, actividades culturais, lavandarias colectivas e creches. Um tour pela Viena vermelha acompanha a história destes bairros que é também a história da social-democracia austríaca cuja cobardia ajudou a levar ao poder o partido nazi, em 1934. / Raquel Varela

A desarticulação do império austro-húngaro, a seguir à I Guerra Mundial, implicou um rearranjo demográfico, político e territorial da cidade de Viena. Num clima de penúria e devastação, assumiram o poder na cidade de Viena o partido social-democrata, de orientação socialista, mais progressista e radical que a maioria das formações social-democratas europeias da II Internacional, mas que rejeitava a revolução à semelhança do que tinha acontecido na Rússia, Alemanha e Hungria. Os social-democratas institucionalizam, promoveram e financiaram um tipo de bairro que os próprios trabalhadores tinham construído de forma ilegal durante e após a guerra e que consistia em bairros na periferia da cidade, inspirados no modelo cidade-jardim, com jardins, parte deles produtivos (hortas) para escapar à penúria.

O programa de habitação social da Viena Vermelha era um programa de socialização da classe trabalhadora, que nada tinha que ver com os modernos guetos onde os trabalhadores se amontoam em condições degradantes. Os bairros da Viena vermelha tinham creches, serviços de saúde, lavandarias colectivas, actividades culturais (cinemas, teatros, etc.), centros desportivos assim como centros comunitários. Ainda hoje um desses bairros, o Karl Marx Hof, um dos maiores, com mais de um quilómetro de comprimento, tem jardins e lavandarias colectivas. Entre 1923 e 1934 foram construídas 64 000 moradias que abrigaram 200 000 moradores, num universo de 2 milhões de habitantes, que era a população da cidade naquela época.

O medo à revolução dos social-democratas levou, porém, ao fim do programa, depois da maior derrota sofrida pela classe trabalhadora austríaca – em 1934, com a ascensão do partido nazi. A 12 de Fevereiro de 1934 começa a guerra civil austríaca, cujos momentos mais dramáticos são vividos no Karl Marx Hof, onde milhares de trabalhadores se barricaram armados para combater o Exército. Foram derrotados definitivamente quatro dias depois, a 16 de Fevereiro. Hoje, a praça central do bairro Karl Marx Hof, chama-se «Praça 12 de Fevereiro». O partido nazi ascendeu ao poder, os trabalhadores ficaram sob as botas do fascismo, os social-democratas foram perseguidos. O medo da revolução não evitou a contra-revolução; pelo contrário, apressou-a.

Em nome da memória do 12 de Fevereiro, e ao contrário da maioria da esquerda europeia que aderiu a posições oportunistas antimilitaristas, ainda hoje a esquerda austríaca, incluindo a social-democracia, é a favor do serviço militar obrigatório porque considera que um Exército não deve ser feito de profissionais, para que tenha menos possibilidades de ser usado contra os trabalhadores ou pelo menos para favorecer que entre em crise quando se dá uma revolução.

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